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RODA DE SAMBA ‘REZA A LENDA’ AGITA OS SÁBADOS NA ILHA DO GOVERNADOR

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A Roda de Samba Reza a Lenda acontece lá pelas bandas da Ilha do Governador – longe, é claro, sob o ponto de vista dos não-insulanos. É uma dessas rodas de repertório fino e nostálgico: aqueles sambas “amaxixados” de Donga, os cáusticos e esfumaçados sambas de Noel, desembarcam num bonde imaginário nos terreiros de Oswaldo Cruz e Madureira, lugar dos batuques de Paulo da Portela, Manacéia, Casquinha… A alegria invade a Praça Iaiá Garcia, na Ribeira, bairro na ponta extrema da Ilha do Governador. Como a roda é na praça, de cara já assume um caráter democrático e muito bonito. De baixo de uma enorme lona azul ladeiam-se mesas de plástico. Dalí urgem os instrumentos, onde em volta canta povo que, impunemente, rima sorrisos com um matreiro e elegante estandarte de Candeia.

No encontro do dia 15 de junho, comandava a roda do Movimento Cultural Samba Reza a Lenda: Natan Nascimento, vocal e cuíca; Alfredo, no surdo; Vlad (Vladimir Zamorano, neto de Julio Zamorano, parceiro de Assis Valente em várias obras), no pandeiro de couro; Cabelinho, no pandeiro de nylon; Lucas Martins, no cavaquinho; Rafael Azul no repique de anel; Rafael Caheté, no reco-reco. Naquele sábado, a roda sentiu a “ilustre” ausência de um de seus fundadores e um dos sambistas mais simpáticos e engajados que já conversei: Rodrigo Nonno, 39 anos, voz, agogô, tamborim e relações públicas. Rodrigo é taxista e, sem dúvidas, requisitadíssimo. No dia seguinte batemos um longo papo pelo “zap”. Eu o conheci como “Bogo”, mas entre os bambas da Ilha ele é chamado de “Presidente”. “ – Irmão, obrigado por ter ido. Espero que tenha gostado. Ontem eu não pude ir, mas tenho certeza que a rapaziada mandou muito bem”. Olha Presidente, tenha certeza disto!

UMBERTO MAURO – Bogo, me conta as origens do Reza…

RODRIGO NONNO – Bom, o Reza tem três anos e alguma coisa…(a pagina do facebook foi criada em 2016). Surgiu da ideia de trazer à tona compositores que a gente pesquisou e no nosso bairro, na Ilha, não tinha nenhuma roda com essa proposta, mas sim com uma abordagem mais atual e tudo mais. Surgiu desta ideia de (…) se aprofundar nos sambas das velhas guardas do Império, da Portela… alguma coisa do Estácio.  Eu levei esta ideia pro João, um amigo que trabalha embarcado que agora não está mais conosco. Mas ele foi a pessoa que fez o primeiro contato com o bar Leo e Noelma, no Cocotá (bairro da estação das barcas), onde foi nosso berço. Tudo começou bem menor…Naquela época até o cavaquinista operava o som ao mesmo tempo que tocava (Risos). Tudo começou pequeno, na esquina de Rua Nereida com Capitão Barbosa.

U.M – Teve aquela história da chuva…

R.N – É…no primeiro dia choveu muito. A gente já teve samba com chuvas… temporais de fato. E numas dessas vezes recebemos o Julião Pinheiro (violonista, compositor), filho do gigante Paulo César Pinheiro. Ainda bem que era dentro do bar. Numa ocasião destas, tivemos uma edição muito especial onde recebemos dois ônibus de um movimento de samba de São Paulo que se chama “Tempo do Onça”. Veio muita gente, a partir daí passamos a fazer sempre na rua. Depois fizemos uma edição do meu aniversário em julho onde veio o Moacyr Luz, bom mais tarde a gente fala sobre isso…(risos)

U.M – Quem foram os músicos que começaram com o movimento?

R.N –  A respeito dos pioneiros, uma boa parte saiu. Mas eles foram muito importantes para que o samba acontecesse de fato. Por uma questão de afinidade, estilo de música, alguns foram tocar seus próprios projetos…participar de outras rodas…Mas foram importantes pra gente pois pegamos uma experiência de um samba mais suingado, mais moderno,né?! E são todos amigos nossos até hoje e tenho muita gratidão por eles todos. Bonfim, Isac, Café, Jeferson, todos com uma levada de samba atual. E depois foram entrando pessoas com mais afinidade com o projeto. Nós sempre tivemos uma espinha dorsal: eu, Tecão, Vitor e Rafael, que estamos até hoje. Temos o Rildo que é o pandeirista e uma destas colunas do Reza a Lenda. Depois entraram pessoas que somaram muito…Hoje o surdista é o Alfredo, que participou desde o primeiro dia, um cara extremamente carismático. Depois tivemos o percussionista Jagunço. Temos um grande irmão que hoje mora nos EUA… ele é de São Paulo, Alexandre Paulo Ciriaco. Esse cara foi de uma grande importância pro Reza. A vinda do “Tempo do Onça” foi iniciativa dele. Depois teve uma outra galera de SP que veio também, o “Samba da Vila”, tudo por intermédio dele. O Ciriaco vinha toda edição do Reza…de São Paulo pra cá. E isso é bem inusitado, né? Como se ele viesse da Ribeira pro Cocotá (risos).

U.M – Nesse entra e sai de músicos e nestas experiências, vocês foram sedimentando a proposta…

R.N –  Isso mesmo. É trazer estes sambas e estes autores mais desconhecidos à tona. Tem um termo que eu gosto, acho que quem fala isso é o Tuco Pellegrino (intérprete e cavaquinista paulista) “sambas empoeirados”. A gente veio pra mostrar estes sambas pras pessoas. Até com o certo receio do pessoal não curtir e tal. Mas sempre tivemos esta fisionomia de…bom…conduta musical mesmo. É um jeito diferente de tocar. A gente não tem tantam, nem repique de mão (desenvolvido por Ubirany do Cacique de Ramos), o pandeiro que fica mais em evidência é o de couro. Mas a nossa musicalidade tem haver com a década de 40, 30 até… A gente toca samba muito antigo…

U.M – E da onde veio este envolvimento, estas escolhas e este seu engajamento pessoal?

R.N – Eles me chamam de “Presidente”. É um apelido carinhoso. É…porque eu sempre fui de tomar estas iniciativas de encabeçar este tipo de empreendimento….Então surgiu assim…Eu comecei a organizar uma visita e uma roda de samba na casa do Casquinha, falecido pilar portelense, né?…Casquinha que é grande compositor (falecido em outubro de 2018). A gente se reuniu lá, pra uma roda de samba, alugamos ônibus e tal…Que foi ideia de um amigo que era louco para conhecê-lo. Eu já conheço a família, eu conhecia o Casquinha bem, eu lá trocar uma ideia com ele…aprender sobre os sambas antigos e as histórias antigas…aí a gente começou esse processo todo. Fizemos uma roda de samba lá, desplugada, tudo desligado, só uma caixinha de som pro violão. Aí falei, “a gente precisa fazer isso na Ilha”. E comecei a me movimentar pra isso acontecer…daí surgiu o Reza. A minha participação hoje…eu toco…uma coisa que acho indispensável é a gente ter bastante tamborim…pra gente dar uma característica mais de terreiro, né, de samba mais antigo…E o agogô que eu acho indispensável também…eu não vejo mais agogô nas rodas por aí. Então a gente dá ênfase… E me dou o direito de cantar…(risos) apesar de não ser cantor, de desafinar…mas me dou o direito de cantar estes sambas que a gente gosta de pesquisar. Eu até canto uns mais novos…Outro dia eu falei assim…bom o Reza ficou caracterizado por cantar uns sambas que a galera intelectualizada gosta…mas não é isso…quer ver uma parada que não escuto em lugar nenhum: “Pagode do Gago”! A gente não está aqui pra resgatar? Então fui cantar este samba…e é um lance que não tem nada de intelectual…que possa levar a uma sofisticação…no entanto é  do Gracia do Salgueiro (autor de “1800 Colinas”) uma composição sensacional, antigo também, lá do Sal…(risos).

U.M – O Reza tem um lado social importante que é o recolhimento de livros. Como é essa iniciativa? Tem aquele caso que você lotou seu taxi de livros…

R.N – É o projeto “Cartilha”. Imaginei uma ação que a gente tinha que ter em paralelo para justificar até o nosso nome “movimento cultural”. E movimento cultural não é simplesmente vir aqui e cantar samba velho. A gente precisa fazer outras coisas também em prol de quem precisa. É uma ação pra incentivar o hábito da leitura. Tem agora o Vlad, um dos pilares do Reza, que assumiu cuidar do projeto. Por esse meu perfil inquieto eu estava muito assoberbado. Aí o Vlad assumiu o projeto Cartilha que é uma coisa muito simples: a gente colaca duas mesas e alguns livros, a gente tem um banner e eles ficam sendo distribuídos ali simultaneamente com o samba acontecendo e tal….Aí tem gente que pega um livro, gente que leva três, cinco, tem gente que leva um…É muito bacana…Veio até uma galera de um coletivo chamado “Lobo Guará” que é lá do Guarabu, do morro do Dendê (maior favela da Ilha do Governador) que me ajudou a projetar filme, vou ver se retorno com isso. A gente projetou até filme no Reza a Lenda…Voltando ao Cartilha …eu estava com problema de armazenar, estocar esses livros, minha mulher com renite reclamando (risos), poeira e coisa e tal…mas eu pegava livro pela cidade. Eu sou taxista aí as pessoas falavam “Nonno tem aqui ó…”, “Nonno vem aqui em casa…”, vamos no Jardim Botânico, vamos nas Laranjeiras….Aí eu parei um pouco…Teve um caso de uma amiga cujo pai ia se mudar e falou “tem uns livros lá…”. Quando eu cheguei lá, nem coube no carro. Era livro em todos os lugares que você possa imaginar…até debaixo dos pedais…ficou ruim pra dirigir (risos). Estes eu deixei na biblioteca do Cocotá. Ah! Esse nome “cartilha” para brincar com o nome “ilha” no final…e foi inspirado no projeto de um rapper chamado Mc Marechal chamado “Livrar”…duplo sentido bacana, né!?

U.M – E já teve até lançamento de livro no Reza…

R.N – Já…já teve sim….dois. Foi o “Águas Cariocas” uma reedição sobre as histórias e artigos antigos sobre a baía de Guanabara. Foi o pessoal do Museu da Maré que fez essa ação lá e foi maravilhoso. E depois de um grande amigo o Thiago que é um poeta insulano que lançou seu livro de poesias…foi ótimo…e em julho tá pra acontecer o lançamento do livro do Paulo Jorge que é um poeta da Ilha, compositor da Ilha do Governador e de outras escolas de samba também, e na edição de julho, onde vamos comemorar meu aniversário, vai ter o lançamento do livro dele também.

U.M – O Reza já recebeu participações especiais do mundo do samba…teve o Moacyr…a Dorina..

R.N – O pessoal entende nosso projeto e com muito carinho vai lá para nos prestigiar, nos ajudar. Acho que nosso primeiro convidado foi o Renato Milagres, sobrinho do Zeca Pagodinho, eu vou tentar lembrar a galera toda…Depois tivemos a Hanna Cagy, que é uma cantora nova que depois ficou efetiva…ia direto. Tivemos a visita do Julião Pinheiro, Moacyr Luz, Gabriel Cavalcanti, muito meu amigo. Poxa…Noca da Portela…foi o dia mais cheio do Reza foi quanto foi o Noca…E ele disse “Só estou dando ao samba o que o samba me deu..” e levou o CDs dele para vender…Recebemos os movimentos de São Paulo: o “Tempo do Onça” e o “Samba da Vila”…Desculpe eu falar tanto…eu sou assim…(risos). É….Beto Fininho, compositor portelense, um cara que ama samba de terreiro. O Eduardo Gallotti (cavaquinista) um cantor muito característico com aquela voz rouca. Bom a Dorina, cara…ela já teve lá umas três ou quatro vezes e virou nossa madrinha…a gente é “apadrinh…”, eu não sei (risos) “amadrinhado” pela Dorina….e isso é uma honra pra gente. Um orgulho demais. Já esteve com a gente o Chico Alves, gente finíssima também. Nossa, porr…!Tuco Pellegrino, nosso irmãozão de São Paulo que é um dos principais expoentes do samba de terreiro… Uma outra cantora excepcional que abrilhantou foi a Mônica Serrado. Esses contatos todos sou eu quem faço.”Ah…sim…o Reza a Lenda, conheço…” – e a galera com carinho aceita.

U.M – Vocês fizeram uma homenagem ao Candeia…

R.N –  Veio a Selma Candeia, filha do Candeia, e foi uma homenagem muito bacana. A gente fez um set de uma hora e meia só cantando música do Candeia.

U.M – Onde o Reza a Lenda quer chegar e quais as pretensões do projeto?

R.N – A gente tinha a pretensão apenas de cantar alguns sambas que a gente não escutava. E só pagando a conta do bar já tava bom (riso). Hoje a coisa mudou, ficou maior, precisa uma logística…A pretensão é se manter…Se a gente tivesse um incentivo maior para que isso continuasse na rua, do jeito que é, de graça, “do povo para o povo” – escutei essa frase uma vez, acho que foi alguma coisa do Candeia. Tenho isso como um chavão…um mote assim…É claro que tentando melhorar a parte financeira para os participantes…Eu sonho um dia em poder fazer uma apresentação como os movimentos que nos inspiraram…Como o Terreiro Grande já fez em teatro, como o Samba do Ouvidor que já fez em teatro várias vezes. Este é um sonho: contratar uma produtora de audiovisual e registrar um samba nosso e isso puder ser mostrado através do youtube, inclusive tem uns vídeos nossos lá…Poder fazer um vídeo bacana, bem produzido. Fazer apresentações em arenas, teatros, enfim difundir o samba. Os tais sambas empoeirados…

O encontro entre o Reza a Lenda e o Tempo do Onça, em 17/06/2017, rendeu um micro-documentário: https://www.youtube.com/watch?v=YG8V9B55Ep8

Na edição de julho de 2017, aniversário de Rodrigo Nonno, o Reza recebeu o grande intérprete e compositor Moacyr Luz:         

SERVIÇO:

MOVIMENTO CULTURAL SAMBA REZA A LENDA.

Roda de samba mensal. Acontece no terceiro sábado do mês, a partir das 17h.

Praça Iaiá Garcia, Ribeira – Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Gratuito.

Redes Sociais:

https://www.facebook.com/sambarezaalenda/

Instagram: @sambarezaalendaoficial

Email: rodrigo.comunicacao@gmail.com

6 Comentários
  1. Sueli Diz

    Parabéns. Adorei a matéria. Música de qualidade tem que ser divulgada e valorizada. Que possamos desfrutar de outras matérias com essa qualidade

  2. Umberto Mauro Diz

    Obrigado, Sueli. Rodas como está são incrivelmente transformadoras.

  3. Delavotre Diz

    Sempre as melhores indicações !!
    Samba dos bons,gente do bem com certeza 🙂

    Já estou animada pra ir na próxima!

    1. Umberto Mauro Diz

      Existem lugar na cidade que são mágicos. O samba do Reza é um destes lugares de alegria, cultura e de reflexão sobre nossa história.

      1. João Diz

        Excelente matéria. Sou fã e frequentador dessa belíssima Roda de Samba

        1. Umberto Mauro Diz

          Obrigado João. Realmente o Reza tem uma beleza própria.

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