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Racismo no Carnaval carioca: deputado aponta motivo de crise e sambistas negros comentam

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Enquanto as escolas de samba lutam por verba para seus desfiles, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) ‘chutou o pau da barraca’ em artigo publicado, mês passado, no Mídia Ninja. Sem “meias-palavras”, o parlamentar apontou o motivo que impede o poder público e privado de investir financeiramente na festa: o racismo. O SRzd conversou com negros do Carnaval para saber a opinião deles e se concordam com a tese defendida por Jean.

“Alguém consegue imaginar que o governo alemão iria deixar a míngua a sua Oktoberfest? Ou que a Espanha viraria as costas para sua tradicional festa do tomate? Claro que não! Porque esses eventos fazem parte da tradição cultural desses povos, remontam a uma valorização de costumes regionais e da própria gente que trabalha ali”, escreveu Jean.

Segundo o parlamentar, para esconder o racismo, a elite critica a relação da folia carioca com o jogo do bicho: “Não estamos falando só da gestão tenebrosa de Crivella à frente da prefeitura, mas de um pensamento amplamente disseminado. Há quem prefira dizer que a questão gira em torno do envolvimento de bicheiros. Mascaram o seu desdém atípico com o samba de sentimento anticorrupção”.

Evelyn Bastos: “É difícil pra eles aceitarem que a festa do Carnaval, a maior do mundo, é de origem negra”

Foto: Leandro Milton

Rainha de bateria da Mangueira, Evelyn Bastos é uma das figuras carnavalescas que mais dá a cara a tapa quando o assunto é política. Ela disse ao SRzd que os racistas não assumem o preconceito, mas no fundo não conseguem aceitar a ideia de que o maior espetáculo da Terra foi formado por negros.

“O samba e o Carnaval ganharam uma visão mundial que ninguém imaginou que ganhariam, até porque o ritmo foi criminalizado no início. Para muita gente que é racista, é difícil aceitar que a festa do Carnaval, a maior do mundo, é de origem negra. Além do mais, esse preconceito se expande. Não é só da parte racial, é também religiosa. No geral, os que são contra o Carnaval são aqueles que tem algum tipo de preconceito.”

Para a majestade da verde e rosa, que vai para o sétimo ano a frente da bateria Tem Que Respeitar Meu Tamborim, a festa consegue vencer os problemas e na passarela, o mundo aplaude os desfilantes: “A gente tem uma grandiosidade que é maior do que isso. A hora que o mundo olha para favela é quando estamos na Marquês de Sapucaí. É a hora de uma valorização não só cultural, mas também de quem faz a festa”.

João Vitor Araújo no barracão da Unidos de Padre Miguel, onde é carnavalesco. Foto: Divulgação.

Carnavalesco da Unidos de Padre Miguel pelo segundo ano consecutivo, João Vitor Araújo concordou com o artigo de Jean Wyllys. Para o artista, a elite gosta de aproveitar as mordomias, mas não dá a mínima para as agremiações e ainda critica os desfilantes.

“É uma festa que sempre foi vista com maus olhos pela elite. Eles gostam de aproveitar o champagne e as mordomias que o camarote pode proporcionar, mas não prestam atenção na mensagem que as escolas se propõem. Tem gente que vai pra lá, come e bebe, mas depois diz que as mulheres que passam na Avenida são putas ou prostitutas e que todos os componentes e passistas são vagabundos. Mal sabem eles o que representa para economia a nossa festa.”

Ele também lamentou que ninguém ainda tenha tomado a frente para resolver esses problemas: “Esse tipo de discriminação a festa sofre desde o início. Temos Tia Ciata como exemplo. Ela usava sua casa como reduto de bambas. Promovia os rituais de candomblé na parte da frente, para despistar a polícia, e na parte de trás, o samba comia solto. Infelizmente, nós vivemos em um país onde as pessoas são hipócritas e temos aquela nossa herança de escravocrata, que diz que Carnaval é festa de preto e favelado”.

Anderson Morango: “Se eu fosse um Lázaro Ramos da vida, o Carnaval bateria palma pra mim”

Anderson Morango é o primeiro homem porta-bandeira da Sapucaí. Foto: Ewerton Pereira

Terceira porta-bandeira da Acadêmicos do Sossego, Anderson Morango será o primeiro homem a empunhar um pavilhão na Marquês de Sapucaí. A quebra do tabu também gera preconceito. Contudo, ele acredita que ser negro não é o principal motivo da intolerância.

“Preconceito que eu sofro no Carnaval não é nem por eu ser negro, mas sim por eu estar em um lugar ocupado por mulheres e ser um homem, gay e não ser um artista famoso. Se eu fosse um Lázaro Ramos da vida, o Carnaval bateria palma pra mim, por ser uma pessoa bem sucedida e artista”, afirmou.

Para Morango, pode haver racismo na folia carioca, mas ele acredita que a crise financeira se dá por questão religiosa: “Realmente há um racismo que muitas vezes tentam velar, não só no Carnaval, como em todos os âmbitos da sociedade. Agora, a crise acredito que esteja mais ligada a uma questão religiosa. Pode ser que haja algum racismo velado, porém, eu vejo mais como preconceito religioso”.

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